Por Ferdnan Gama (advisor em governança e expansão de negócios)
A pergunta não é “China sim ou não?”.
A pergunta certa é: qual arquitetura de decisão protege a margem, preserva a qualidade e reduz risco — sem comprometer o crescimento?
Nos últimos anos, a China deixou de ser sinônimo de “baixo custo com baixa qualidade”. Hoje, você encontra desde produtos de especificação básica até soluções de alto desempenho técnico — e isso muda completamente a conversa.
A seguir, vou te mostrar como avaliar essa decisão com maturidade: custo real, velocidade, qualidade, riscos e alternativas.
1) O que mudou na China: qualidade virou padrão — e velocidade virou vantagem
Quem ainda decide com base em preconceito (“produto chinês é ruim”) está atrasado.
A realidade é que o mercado chinês evoluiu: mais tecnologia, mais capacidade industrial e mais aderência a especificações.
E existe um diferencial silencioso que pesa no caixa: velocidade.
Velocidade de cotar, ajustar, prototipar, produzir e despachar. Em mercados competitivos, isso encurta o tempo entre ideia e faturamento.
Pergunta-chave: seu negócio precisa mais de custo baixo… ou de time-to-market?
2) O maior erro: comparar só preço — e ignorar o Total Landed Cost
A decisão não pode ser “o fornecedor me deu 18% mais barato”.
Tem que ser “o projeto me entrega mais margem no custo total, com risco controlado”.
Aqui entra o conceito que eu mais uso em governança operacional:
Total Landed Cost (TLC)
Inclui:
- custo do produto
- frete e seguro
- impostos e desembaraço
- inspeções e auditorias
- custo de retrabalho/devolução
- capital em trânsito (dinheiro parado no mar)
- ruptura (quanto custa ficar sem?)
Se você não mede isso, você não decide — você aposta.
3) O “pulo do gato”: governança de fornecedor (sem isso, China vira problema)
Produzir na China funciona muito bem quando existe sistema. Sem sistema, vira risco.
Checklist mínimo de governança:
- Especificação inegociável (tolerâncias, materiais, testes, performance)
- Amostras e aprovação formal (com rastreabilidade)
- Inspeção antes do embarque
- Contrato com SLA e penalidades
- Plano de contingência (dual sourcing / China+1)
China não é “terra sem lei”. Mas exige método.
4) E o Brasil? Incentivo fiscal não pode ser estratégia
Muita empresa toma decisões industriais por “benefício fiscal”.
Isso é perigoso porque o cenário tributário passa por transições e reequilíbrios ao longo do tempo, o que reduz previsibilidade quando a escolha depende só de incentivo.
A decisão saudável se sustenta em:
- produtividade
- performance
- previsibilidade
- capacidade de atender cliente melhor
5) Alternativas que entram no radar: China+1 e maquila no Paraguai
China+1: o modelo mais comum no mundo
Você mantém parte na China, mas abre um segundo polo para reduzir dependência e criar resiliência.
Paraguai (maquila): eficiência tributária e industrial para exportação
O regime de maquila é citado como alternativa por conta de seu desenho pró-exportação e estrutura tributária específica sobre valor agregado.
Não é “melhor ou pior”. É qual se encaixa na sua categoria, rota e nível de risco aceito.
6) Então… produzir na China vale a pena?
Vale, quando:
- sua empresa precisa de escala, velocidade e competitividade
- você calcula o custo total (não só o preço)
- você tem governança de qualidade e contrato
- você estrutura resiliência (China+1 / dual sourcing)
- você decide por performance — não por moda ou impulso
A China é um motor.
Mas motor sem painel, sem freio e sem manutenção… vira acidente.



